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A perspectiva que potencializa processos terapêuticos e transformação de conflitos

A ferida da introversão e timidez sempre foi uma pedra no meu sapato, por muito anos eu acreditei que eu não seria amada nem teria oportunidades na vida por conta dessa característica. Já fiz um esforço sobre-humano sem sucesso para tentar ser quem eu não era. Depois disso, simplesmente passei a acreditar que como eu não era boa o suficiente, então teria que me dedicar sempre mais e mais para ser reconhecida e valorizada, para compensar a falha da timidez.


Quando trabalhei no Banco do Brasil, eu fiquei por algum tempo no caixa e muitas pessoas que tinham comércio nos arredores frequentavam o banco diariamente para pagar suas contas (época antes dos apps de celular!), por conta disso, eu era bem famosa, todos os comerciantes da rua me conheciam!


Naquela época, eu simplesmente fazia meu trabalho, da melhor forma possível, e com um pouco mais de maturidade, já não tinha aquela insegurança tão intensa de achar que eu não era boa o suficiente e que por conta disso seria preterida ou demitida, porém, eu ainda acreditava eu por ser uma pessoa tímida e introvertida, eu tinha menos valor e as pessoas não gostariam tanto de mim.


Com o tempo, uma coisa começou a chamar minha atenção: foi muito surpreendente quando eu comecei a receber feedbacks positivos e espontâneos dos clientes: um elogio, um bombom que o dono da doceria sempre levava, um presentinho de natal da dona da loja de cosméticos, um cartão expressando gratidão...teve uma vez em um dia normal que ganhei 3 desses “presentinhos” de gratidão, fiquei tão surpresa, afinal eu “não fiz nada” para agradar as pessoas, não fiz um esforço sobre humano, não fingi ser quem eu não era, eu simplesmente estava sendo eu.


Essa foi uma das primeiras vezes (eu já estava perto do 30 anos!) em que eu pude ter a sensação de que eu não precisava ser diferente do que eu era nem me esforçar para ser aceita ou valorizada. Além da minha questão individual, soma-se a isso a socialização feminina, em que a pressão por “agradar” a qualquer custo é sempre muito mais intensa.


Me dar conta disso somente por volta dos 30 anos pode parecer estranho, mas fui compreendendo que na minha família não tínhamos o hábito de agradecer uns aos outros nem de expressar apreciação. Algumas pessoas acreditam que expressar apreciação faz os outros se acomodarem, então preferem focar apenas nas críticas, mas isso infelizmente tem uma consequência trágica: quando só expressamos o que não vai bem, a mensagem que o outro com frequência recebe é que “ele não é suficientemente bom”.


Nos processos de autoconhecimento ou de transformação de conflitos, adotar a perspectiva apreciativa, mas não ingênua ou de negação, faz uma grande diferença (o foco fica principalmente no que é saudável e como podemos utilizar essas habilidades e aprendizados para corrigir o que não está bom), bem como saber reconhecer e mapear esses fragmentos de interações positivas, essas ilhas de sanidade, que de certa forma funcionam como pontos de acupuntura, que vão balizando, se tornando referências para atualização de nossa leitura de mundo, de nosso diálogo interno, de nossa autopercepção. Sou profundamente grata a cada cliente que expressou seu carinho e apreciação naquele momento, pois foi o que me permitiu dar um salto na construção e fortalecimento da minha autoestima e autoconfiança.


Às vezes, com uma simples ação, como um elogio, um presente ou um feedback, podemos fazer uma enorme diferença na vida de alguém.


Marina De Martino Facilitadora de Grupos de Comunicação Não-Violenta e Justiça Restaurativa Atendimentos individuais, casais, famílias, escolas, empresas, ongs

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