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Cuidado, o salvador pode arruinar uma relação

Atualizado: 3 de jul. de 2023

Cuidado, o salvador pode arruinar uma relação

Certa vez, em um grupo, eu tive um conflito intenso com uma pessoa que vou chamar de Fernanda. Esse conflito teve uma série de questões envolvidas, entre elas, o fato de eu tomar uma decisão referente a minha vida pessoal que supostamente era diferente do que eu "deveria", do que as pessoas "esperavam de mim".


Me lembro de um dos cursos do Dominic Barter, facilitador de CNV, em que eu participei e que ele mencionava essa dinâmica: temos medo de mudar e romper acordos que não fazem mais sentido porque isso desorganiza internamente o outro, causando dor e desconforto. E aquilo que dói e o outro não compreende ele julga e rotula.


Eu fiz uma escolha que impactou e desorganizou o mundo interno de outras pessoas, isso causou dor e desconforto, obvio que fui julgada, rotulada e apedrejada por isso. Ficou claro para mim com esse incidente como a dor pode ser usada como forma sutil e muito poderosa de controlar o comportamento dos outros. "Olha só como estou sofrendo por conta do que você fez! ". Lembrando que o que eu fiz dizia respeito a minha vida pessoal, certo?


Dentro dessa massaroca, uma coisa que complicou muito qualquer tipo de esclarecimento ou elaboração saudável do conflito entre nós foi a interferência do "salvador".

Sabe aquela pessoa que se mete no conflito alheio, toma partido de uma das partes e fica dando a opinião sobre quem está certo e quem está errado?


Karpman tem uma teoria chamada Triângulo Dramático, em que ele descreve a dinâmica que acontece quando em um conflito assumimos os papéis de vítima, algoz e salvador. Ficamos presos, alternando ataques, vitimizações, tentativas de salvar, controlar ou resolver a situação. Mas a situação não se resolve. O que acontece frequentemente é uma alternância de papeis. O algoz vira vitima ou salvador, o salvador vira vitima ou algoz, a vítima vira algoz ou salvador e assim o conflito segue infinitamente.


Voltando ao meu conflito, uma pessoa que vou chamar de Lia, tem um padrão de defender as outras. Uma variação do salvador. O papel do salvador é trágico, pois ele infantiliza as pessoas. Afinal, por que uma pessoa adulta precisa ser defendida? Ela não tem voz e autonomia para dizer o que sente e o que quer? Será que ela é tão frágil ou incapaz que precisa que alguém fale por ela?

E quando o salvador fala pela vítima, consequentemente a vítima fica silenciada. Quem falava era a Lia, que despejava em mim as suas interpretações, projeções e cargas adicionais que não tinham necessariamente a ver com o que se passava com a Fernanda, que comprava essa nova carga como se também fosse uma dor sua em relação a mim. Fenômeno da dor importada, já viu esse "filme" antes?


Eu me afundava cada vez mais presa no papel de algoz e também fiquei silenciada, pois como eu era a ré, supostamente não tinha o direito de expressar o que eu sentia ou precisava, minha dor não tinha legitimidade. O que eu falava era invalidado, naquele grupo só me restava a opção de ser punida carregando a responsabilidade pelo sofrimento dos outros.

Eu não tinha mais espaço nem condições emocionais para falar abertamente com a Fernanda sobre o que eu queria ou precisava, a Fernanda não tinha mais espaço nem condições emocionais para falar abertamente comigo sobre o que ela queria ou precisava. Nosso diálogo que aparentemente estava sendo "mediado" pelo salvador, na verdade, estava completamente bloqueado.


Por muito tempo eu vi a Fernanda sofrendo horrores e atribuindo a causa do sofrimento dela a mim. Depois de muitos meses eu consegui elaborar que eu era um gatilho que fazia com que ela lembrasse de muitas situações mal resolvidas semelhantes ao conflito que tivemos e que naquela dor toda atribuída a mim ainda havia o acréscimo das interpretações e dores da Lia. A maior parte daquela carga não dizia respeito a mim. Infelizmente, a única coisa que eu pude fazer foi me afastar para preservar minha saúde mental e emocional.


Agora voltando a relação entre Fernanda e Lia, sabe qual foi o final da história?

Como era previsível pela dinâmica do triangulo dramático, houve novos outros conflitos e hoje a Fernanda e a Lia não de falam (que alívio, como eu não estava mais no grupo, ficou evidente que eu não era o ser abjeto e detestável que arrastava o grupo pro esgoto! Estando no olho do furacão precisei fazer muito esforço para me lembrar disso!).


Lia de salvadora virou algoz/vítima e acusou Fernanda: como você pode ser tão ingrata, insensível, injusta, eu te defendi tanto e agora você faz isso comigo?

Quando você é defendido pelo salvador, você fica em uma dívida eterna e mais cedo ou mais tarde a conta vem, com juros e correção monetária. Dá para ver com esse exemplo como o triangulo dramático é traiçoeiro e perigoso?


Como sair dele?

Reconhecer quando assumimos esses papeis é um primeiro passo,

Ter cuidado com os julgamentos, rótulos e interpretações e também com as "dores importadas",

Compreender como responder com empatia, sem tomar partido de um lado ou de outro,

Evitar triangulações (falar de alguém que não está presente e não pode contar sua versão),

Evitar falar pelas pessoas ou defende-las, mas apoiar as pessoas a falarem por si,

Buscar um sistema de apoio que permita manter no modo "escuta empática",

E se o conflito for muito completo e perigoso, buscar ajuda de alguém devidamente treinado para conduzir conflitos.


Marina De Martino

Facilitadora de Grupos de Comunicação Não-Violenta e Justiça Restaurativa







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