top of page

Matar pessoas é muito superficial

Trecho de um texto maior, de autoria de Marshall Rosenberg


Para mim, qualquer tipo de assassinato, acusação, punição ou ferir pessoas é uma expressão muito superficial da nossa raiva.

Nós queremos alguma coisa muito mais poderosa do que matar ou ferir pessoas física ou mentalmente. Isso é muito fraco. Nós queremos alguma coisa muito mais poderosa do que nos expressarmos completamente.

O primeiro passo que eu sugiro para expressar nossa raiva é divorciar totalmente a outra pessoa de alguma responsabilidade pela nossa raiva. Como eu tinha comentado, isso significa qualquer pensamento que nos faça acreditar que ele, ela, eles me causaram raiva quando fizeram aquilo.

Quando nós pensamos dessa forma, nós somos muito perigosos.

E nós não estamos expressando completamente a nossa raiva. Ao invés disso, acusando ou punindo o outro, nós estamos nos expressando apenas superficialmente.

Eu mostro a encarceirados, que querem punir os outros, que a vingança é um grito distorcido por empatia. Quando nós pensamos que precisamos ferir os outros, o que nós realmente precisamos é que as outras pessoas vejam como nós estamos feridos e como o comportamento delas contribuiu para a nossa dor (...)

Eu estava demonstrando isso uma vez para um encarceirado que me contou que queria matar um homem. Eu disse, “Eu aposto com você que eu posso te mostrar uma coisa que seria muito mais doce que a vingança”

E o prisioneiro disse: “ De modo algum, eu te digo que a única coisa que me manteve vivo nestes últimos 2 anos na prisão é pensar em sair daqui e pegar aquele homem, por conta de tudo que ele fez para mim. Esta é a única coisa do mundo que eu quero. Então eles me colocarão de novo aqui e OK. Tudo o que eu quero fazer é sair daqui e realmente ferir aquele homem.”

Eu disse: “Eu aposto com você que eu posso te mostrar uma coisa mais deliciosa do que isso.”

“De modo algum, homem.”

“Você me daria algum tempo?” (eu gostei do senso de humor daquele homem). Ele disse, “Aqui eu estou cheio de tempo, homem.” E decidiu ficar lá por mais um tempo.

De qualquer modo, eu disse: “Agora o que eu gostaria de mostrar para você é uma outra opção, que não seja ferir pessoas. Eu gostaria que você fizesse o papel da outra pessoa.”

Prisioneiro: ok

Marshall (fazendo o papel do encarceirado): “É o primeiro dia em que eu estou fora da prisão. Eu te encontrei. A primeira coisa que eu quero fazer é agarrar você.”

Prisioneiro: “É um bom começo.”

Marshall (fazendo o papel do prisioneiro): “Eu coloco você em uma cadeira e agora eu vou te dizer algumas coisas e eu quero que você me responda o que você me ouviu dizer. Você entendeu o que é para fazer?”

Prisioneiro (no papel do inimigo): “Mas eu posso explicar!”

Marshall (fazendo o papel do prisioneiro): “Cale-se. Você ouviu o que eu te disse? Eu quero que você me diga o que você me ouviu dizer.”

Prisioneiro (no papel do inimigo): “ok”

Marshall (fazendo o papel do prisioneiro): “Eu trouxe você para a minha casa e tratei você como um irmão, eu te dei tudo por 8 meses, e então você fez isso comigo. Eu estou tão ferido que é difícil suportar isso.” (Eu já conhecia a história do prisioneiro, pois ele contava isso inúmeras vezes, então não foi difícil para mim entrar no papel).

Prisioneiro (no papel do inimigo): “Mas eu posso explicar!”

Marshall (fazendo o papel do prisioneiro): “Cale-se. Diga-me o que você ouviu.”

Prisioneiro (no papel do inimigo): “Depois de você ter feito isso por mim, você se sentiu ferido. Você gostaria que as coisas tivessem sido diferente.”

Marshall (fazendo o papel do prisioneiro): “E então, você sabe como é, pelos próximos 2 anos estar com raiva dia e noite, de modo que nada me satisfaz, exceto pensar em ferir você?”

Prisioneiro (no papel do inimigo): “Então, isso destruiu a sua vida, de forma que a única coisa que você pôde fazer foi ser consumido pela raiva durante esses dois anos.”

Nós mantivemos isso por mais alguns minutos, e então, este homem estava muito movido emocionalmente e disse “Pare, pare, você tem razão. Era disso que eu precisava.”

(...)

Então, minha previsão é que qualquer pessoa que sinta prazer em machucar os outros foi exposta a muita violência, psicológica ou de outro tipo. E então eles precisam de empatia pela enorme dor que eles estão sentindo.


Marshall Rosenberg – Livro Vivendo a CNV

5 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Um momento em que Marshall Rosenberg "explodiu" com os filhos

Esse é o resumo de um texto maior do Marhsall Rosenberg, em que ele nos conta sobre um episódio de raiva incontrolável que ele teve, e como ele lidou com a situação. Eu gosto muito deste texto, pois n

Marshall Rosenberg queria matar um homem

Esse é o resumo de um texto maior do Marhsall Rosenberg, em que ele nos conta sobre um episódio de raiva incontrolável que ele teve, e como ele lidou com a situação. Eu gosto muito deste texto, pois n

Um membro da Ku Klux Klan

Trecho do livro “Revolução Pacífica através da Educação” (Peaceable Revolution Through Education) de Catherine Cadden Tradução: Sandra Caselato Zeke, de dezesseis anos de idade, era um membro ativo da

Comentários


bottom of page