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O diagnóstico de fobia social pode estimular relacionamentos abusivos


Fernanda sempre teve dificuldades em seus relacionamentos e um dos diagnósticos que recebeu, uns 20 anos atrás, foi de ansiedade e fobia social. Fobia é diferente de medo, sendo considerada um medo excessivo, desproporcional, portanto uma resposta não alinhada com a situação real e o tratamento, além da terapia e medicação, seria se expor gradativamente aos estímulos que causavam o desconforto, de forma que houvesse uma “acomodação emocional” e o “treino” de habilidades sociais.


Considerando que Fernanda desde criança sempre foi muito sensível e sagaz, percebendo violências normalizadas, mesmo as mais sutis, com muita clareza, isso se tornava ao mesmo tempo uma benção e uma tortura. Perceber certas dinâmicas e não ter a oportunidade de explorar essa percepção em detalhes podendo conversar com alguém que compartilha do mesmo ponto de vista, compreendendo como ela se relaciona e influencia aspectos socioemocionais é muito desorientador, leva a um descrédito em si mesma e uma sensação de isolamento e solidão. O único feedback que Fernanda recebia dos outros, inclusive dos terapeutas, é que sua ansiedade e fobia eram consequência de um desequilíbrio no nível intrapessoal (relação eu-consigo mesma), devido a uma organização falha do seu mundo interno e de como processar as informações vindas do exterior.


Certas violências sociais (que não são conflitos intrapessoais) dessas que ela percebia e os outros não reconheciam, começaram a se tornar “nomeáveis” apenas recentemente (e portanto passíveis de serem analisadas e mudadas), tanto que ainda nem temos os termos correspondentes em português para a maioria dessas dinâmicas: mansplaining, ghosting, gaslighting, manterrupting, brotheragem, prateleira amorosa, dispositivo materno, síndrome de Estocolmo social, etc.

Com a informação que temos hoje, se analisarmos a situação de Fernanda, fica evidente que o que ela vivia não era um sentimento desequilibrado ou exagerado, mas sentimentos profundamente dolorosos decorrentes de situações reais de violência (não reconhecidas socialmente como violências).


Mas o mais grave disso é o risco que particularmente mulheres estão expostas quando o diagnóstico de ansiedade/fobia social não considera como essas vio.lên.cias sociais influenciam a paciente. Veja o caso de Fernanda: ela acabou se expondo a relacionamentos abusivos, porque não conseguia nomear e conversar com alguém sobre a violência que sofria e também não tinha isso validado pelas pessoas ao seu redor, então começava a acreditar que o problema do relacionamento era ela, que deveria fazer mais terapia, para que se relacionar ficasse mais confortável, que quanto mais ela se expusesse ao “gatilho”, mais haveria a acomodação emocional, ela se sentiria mais à vontade, daria melhores respostas e seus relacionamentos teriam mais êxito!!!!

Vale acrescentar aqui uma outra vio.lên.cia social que aumenta o risco, que é o fato de as mulheres serem valorizadas pela capacidade de manter relacionamentos heterossexuais estáveis, sendo a responsabilidade pelo sucesso da relação 100% atribuída a elas, e não 50-50% como seria justo. Assim ela se expunha a situações perigosas sob vários aspectos, acreditando que o medo/desconforto era devido a um conflito interno e não a uma ameaça real.


Recentemente eu vi um meme em inglês dizendo que a chance de uma mulher ser atacada por um tubarão é infinitas vezes menor do que a chance dela ser estu.pra.da ou mor.ta por um homem, e ainda assim o medo que as mulheres sentem de um tubarão é muito mais reconhecido e validado que o medo que as mulheres sentem de homens. O medo da vio.lên.cia masculina é real e não é possível escolher se afastar de homens, tendo em vista que 50% da população são homens e que eles são a maioria nos espaços públicos de poder. Pior ainda, é quando se é estimulada desde criança com histórias de princesas a amar aqueles que ameaçam nossa vida, negando a violência que eles praticam. Isso por si só já tem um potencial de causar uma série de danos.


Uma psicologia crítica que considere não apenas os desafios intrapessoais (relação eu-consigo mesmo) mas principalmente as intersecções entre gênero, raça, classe social, gordofobia, etarismo, etc é extremamente necessária e negligenciar esses aspectos pode causar danos graves a quem procura terapia por já estar adoecida por essas dinâmicas disfuncionais.


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