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O prejuízo de recompensar o sofrimento

Atualizado: 3 de jul. de 2023

Um aspecto fundamental para uma comunidade ou um grupo permanecer em harmonia são os acordos de convivência e funcionamento.

É muito importante que esses acordos sejam feitos de forma democrática, em que as necessidades de todos estejam atendidas e consideradas, garantindo as condições necessárias para que todos estejam em segurança emocional e motivados a se engajar. É o uso do PODER COM o outro.


Um exemplo claro dessa dinâmica é a relação dos 3 mosqueteiros: um por todos e todos por um. Nos doamos ao grupo e dele também recebemos apoio e cuidado.

O que percebi ao longo da minha experiência de 7 anos morando e trabalhando na Comunidade Dedo Verde e em outros grupos que frequentei é que mesmo com esses acordos que visam manter e estimular o uso do PODER COM, ainda escorregamos em estratégias dissimuladas ou inconscientes que nos levam ao uso do PODER SOBRE o outro.


Quando falamos em PODER SOBRE, pensamos em dominação e o mais comum e obvio é imaginarmos um sistema ditatorial, alguém com muito poder limitando o acesso a recursos, dando ordens, ameaçando e punindo os mais fracos.


Mas o uso do PODER SOBRE pode vir também por parte daqueles que detém menos poder no grupo ou estão mais fragilizados e o problema disso é que podemos não perceber que essa dinâmica está acontecendo, pois não costumamos associar poder a fraqueza ou impotência.

A pessoa que está em constante sofrimento, com questões de saúde, dívidas, conflitos familiares, etc. precisa de apoio e isso é legítimo, porém, pode demandar mais atenção e energia do grupo do que está em condições de doar. E o risco é o grupo se perder de seu propósito e objetivo iniciais e girar em torno dos problemas e questões de uma pessoa específica apenas.


Assim, aqueles integrantes que estão bem, equilibrados, potentes, passam a ter suas necessidades ouvidas e consideradas cada vez com menos frequência ou se sentem de certa forma desencorajados a pedir ajuda, afinal, suas demandas são menos legítimas, tem gente que precisa muito mais...


Isso pode até inibir alguns participantes de discordar ou impor limites aos pedidos daquele que sofre tanto, afinal ele já tem tantos problemas para lidar...Aquele que se coloca de forma contrária pode ser encarado como mais um carrasco.

Um dos riscos de optarmos por esse caminho é uma competição pelo sofrimento: quem sofre mais, tem mais chances de ter suas necessidades atendidas e deter o controle do grupo, assim, inconscientemente, recompensa-se a fraqueza, o fracasso, os problemas, a doença. Quem decide para onde o grupo vai não é mais a inteligência coletiva, mas quem tem mais desequilíbrios...o resultado disso é um número cada vez maior de problemas a serem geridos, a degradação e a decomposição.


A dor que é despertada em nós quando vemos alguém em sofrimento pode ser tão intensa a ponto de nos hipnotizar, e temos medo disso, o que nos leva a uma urgência em resolver a situação: damos conselhos, propomos soluções, tomamos partido, tentamos salvar o outro...


Um aprendizado importante ao vivermos em grupo é FICAR COM a dor do outro sem nos deixar dominar por ela, sem deixar que ela condicione as escolhas que fazemos, sem deixar que descuidemos de nós mesmos ou dos demais membros do grupo. Isso pode ser um desafio, pois não somos educados a aceitar e acolher a dor e os lutos como parte fundamental dos processos que vivenciamos.


Da mesma forma que precisamos aprender a FICAR COM a dor também precisamos aprender a FICAR COM a alegria e a potência. Direcionar nossos esforços e atenção para aquilo que promove trocas nutritivas e enriquece a nossa vida. Isso também pode ser desafiador, principalmente quando vivemos em um sistema que se sustenta de nossas fraquezas, pois para manter a dominação e alimentar o ciclo do consumo, precisamos estar insatisfeitos e também acreditar que não temos autonomia e poder para mudar as situações que nos prejudicam.


FICAR COM é parceiro inseparável do PODER COM, da alegria do que nos torna potentes.



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