top of page

Por que afeto ainda não faz parte dos currículos escolares?

Aprender e ensinar sobre afetividade ainda hoje parece ser algo que não se encaixa nos currículos escolares. Eu não me lembro de ter vivido situações de troca de afetividade na escola, nem de haver um terreno propício para isso, com atividades e práticas com essa finalidade.


Acho que a primeira vez que me senti autorizada a abraçar, olhar nos olhos ou expressar carinho por alguém em um ambiente de estudo foi na faculdade, e nem foi nas aulas do meu curso (Letras), mas nas aulas de Dança Circular, que era uma atividade extracurricular.


Um dos pontos muito importantes a se observar em cursos, formações e também na escola é o currículo oculto: aquilo que não está registrado nas atas e conteúdos programáticos, mas que está implícito na forma como lidamos com os conflitos, como organizamos a divisão do trabalho na escola, como nos relacionamos com os alunos, como lidamos com questões de gênero e raça, o que escolhemos ensinar e não ensinar, o que negligenciamos, etc.


O ensino do afeto tem sido sistematicamente desvalorizado durante séculos, então quando escolhemos não ensinar afeto, na verdade o que ensinamos para as crianças é que sentimentos não importam, atrapalham e devem ser excluídos. Também ensinamos que carinho e cuidado não são algo importante nas relações humanas.


A educação emocional, aprender a identificar, nomear e expressar sentimentos, aos poucos tem deixado de ser currículo oculto e algumas abordagens da pedagogia, supostamente inovadoras, vão um pouco além, propondo o ensino afetivo, mas infelizmente ainda é um uso do afeto, diversão, conforto emocional como forma de tornar o ambiente escolar livre de conflitos e o aprendizado dos conteúdos mais agradáveis e mais assimiláveis. O foco principal ainda é o conteúdo programático e não o afeto em si, que neste caso se configura apenas como um meio para se atingir um objetivo (aprender um determinado conteúdo futuramente passar no vestibular) e não um fim.


Paulo Freire já pontuou algo importante a se considerar e que ainda poucas abordagens pedagógicas consideram: conhecimento sem ética e sem afeto é perigoso. Esse fenômeno é o que gerou por exemplo situações em que os médicos nazistas faziam experimentos com pessoas judias vivas em nome da “ciência”, o uso de transgênicos ou radioatividade em nome da produtividade sem considerar o impacto sistêmico e a longo prazo sobre o meio ambiente e outras formas de vida, etc.


Rubem Alves, em Conversas Com Quem Gosta de Ensinar, argumenta que “numa sociedade utilitarista que lida mal com as aspirações de felicidade das pessoas, uma escola de crianças felizes é uma escola em conflito e em ruptura com a sociedade, cuja existência, por isso, a própria sociedade não deveria tolerar, em nome, porventura, do reconhecimento do ‘direito’ da criança a ser educada na e para a infelicidade, ou seja preparada para o futuro.”

Essa frase me estremece a alma, pois explicita as escolhas inconscientes e trágicas que temos feito em termos de educação e desperta a pergunta: que tipo de seres humanos estamos criando e para que tipo de futuro?


Quando prepararmos crianças para o futuro negando-lhes a oportunidade de viver plenamente e prazerosamente o presente, sob o pretexto de que “um dia você vai entender, um dia você vai usar isso, o mercado de trabalho é competitivo, você tem que ser autossuficiente, você tem que ser o melhor, você tem que estar preparado porque o mundo lá fora é pior, ninguém vai ser bonzinho com você”, na realidade além de criarmos adultos insensíveis e incapazes de expressar afeto e carinho, também estimulamos crises de ansiedade e depressão cuja cura (que pode levar uma vida inteira) está diretamente relacionada a aprender viver no presente, se desatando das dores do passado e dos medos de um tenebroso futuro imaginário.


Provavelmente, uma educação planejada para crianças felizes e profundamente treinadas para estabelecerem relações de cuidado e afeto é um caminho que garantirá o nosso futuro e futuro das próximas gerações.


Marina De Martino Facilitadora de Grupos de Comunicação Não-Violenta e Justiça Restaurativa Atendimentos individuais, casais, famílias, escolas, empresas, ongs


1 visualização0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Professora sim, tia não

Eu trabalhei por um período como professora de educação infantil. Nesse contexto, é muito comum as crianças chamarem as professoras de “tia”. Eu mesma me lembro com carinho de algumas “tias” que contr

bottom of page