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Punição: como ela pode prejudicar seu relacionamento?

Atualizado: 3 de jul.

Havia uma pessoa que trabalhava com certa frequência na Comunidade Dedo Verde e uma vez precisou levar o filho consigo. Ele ficou quietinho o tempo todo jogando ou assistindo vídeos em seu tablet. Em um dado momento, o Chris, meu ex-companheiro, sentiu falta de seus fones de ouvido. Ele viu que os fones que o menino estava usando pareciam os dele e perguntou se ele tinha pego. O menino respondeu que não, mas alguns minutos depois os fones apareceram misteriosamente sobre a mesa da sala...


Não era um problema grave o fato dele ter pego os fones para usar momentaneamente, o erro foi que ele apenas não avisou que faria, o que facilmente seria corrigido com uma conversa e o entendimento sobre as consequências dessa escolha: o Chris não ia saber onde os fones estavam e ia perder um tempo considerável procurando. Mas do ponto de vista do menino, era um risco muito grande falar a verdade e se sujeitar a uma possível punição ou uma acusação injusta de roubo.


Esse fato deixou evidente as consequências de se educar com base em punição. A punição pela culpa, medo ou vergonha não nos torna melhores nem mais alinhados, ela ensina a mentira e a dissimulação e causa um afastamento quando mais precisamos de apoio e relações seguras para lidar com os erros e suas consequências...

Mas não são apenas as crianças que estão sujeitas a essa dinâmica. Me lembro de certa vez em que uma amiga decidiu mudar de cidade, para morar onde sempre fora o seu sonho, mas isso implicaria ficar longe da família, decisão que não seria bem recebida por seus pais.

A escolha dela foi se mudar primeiro, dizendo que ia apenas viajar e avisar depois. A punição emocional pela apropriação de sua autonomia seria tamanha que talvez ela não conseguisse seguir adiante com sua decisão, então preferiu comunicar isso já afastada.


Marshall Rosenberg, criador da Comunicação Não-Violenta sugere que nos façamos duas perguntas quando pensamos em fazer uso da punição.

A primeira é o que queremos que a outra pessoa faça?. É possível formular um pedido claro e especifico do que ela precisa fazer para corrigir o dano causado ou estamos apenas interessados em seu sofrimento, vingança ou controlar seu comportamento sem considerar suas necessidades e motivações?


A outra pergunta é “com qual motivação eu gostaria que a outra pessoa fizesse aquilo que estou pedindo?”. Quando alguém faz algo motivado por culpa, medo ou vergonha, a longo prazo todos perderão, pois não houve um aprendizado ou conscientização em relação à questão.


Essa situação me fez refletir sobre a frequência com que a punição seja física ou emocional acontece entre pais e filhos e como isso acaba sendo destrutivo a longo prazo, isolando e fragmentando relações que poderiam ser muito mais amorosas e satisfatórias se permitíssemos que o outro pudesse livremente ser quem é e se os erros fossem vistos como oportunidades de aprendizado.


Certa vez, em uma conversa com o pai de uma menina, ele me disse: eu acredito na punição e sou severo com minha filha porque o mundo lá fora é cruel vai ser duro com ela quando ela crescer. Ela precisa aprender isso desde pequena. Eu fiquei refletindo sobre o risco dessa lógica, pois além de toda essa problemática que já mencionei, essa associação entre amor e violência é uma porta aberta para relacionamentos abusivos no futuro...


Uma outra situação que me chama muito a atenção é o uso da punição em ambientes escolares. Um ambiente punitivo certamente ao invés de estimular a compaixão entre os educandos, acaba estimulando comportamentos intolerantes em relação às diferenças ou desvios da norma, seja normas escolares ou culturais (como religião, etnia, orientação sexual, etc), criando as condições propícias para o florescimento do bullying.


Um outro ponto que quero ressaltar em relação ao ambiente escolar tem a ver com as colas e outros tipos de sabotagens ou situações em que os alunos se unem para ou protestar contra as figuras de autoridade.

Eu concordo que a cola impede uma avaliação precisa sobre o aprendizado do aluno, porém quando ao invés de funcionar como um diagnóstico do que precisa ser revisto e melhorado no processo de ensino-aprendizagem o uso de notas escolares é utilizado para comparar, punir ou rotular o desempenho dos alunos, acabamos criando mais uma dinâmica que estimula o uso da mentira e dissimulação para autoproteção e os educadores passam a ser vistos como ameaças e não como referências com quem se pode contar e confiar.


E quero acrescentar um ponto de vista complementar: quando os alunos se unem para burlar esse sistema baseado em notas e comparações mediante a cola, sabotagens ou protestos, curiosamente estão intuitivamente aprendendo importantes lições sobre cooperação entre pares e troca de cuidado.


Em situações como essa acredito que vale a pena os alunos a refletirem sobre as consequências de seus atos e repararem os danos que suas atitudes podem ter causado, mas também estimularia a reflexão e aprendizado sobre como essas redes de apoio e resistência se formam e se sustentam ente os alunos para reivindicar direitos e se fazer ouvir, algo que fará uma diferença significativa quando eles forem adultos, afinal, essa habilidade é muito necessária e escassa quando pensamos nas necessidades urgentes de mudanças sociais que enfrentamos.


Se tivéssemos tido essas oportunidades, em nosso processo de educação familiar ou escolar, de aprender com nossos erros, de nos fazer ouvir ou encontrar soluções quando alguma decisão ou situação não cuida de nossas necessidades ao invés de nos submetermos passivamente, além de viver relacionamentos próximos com mais qualidade e parceria, imagino que hoje, quando adultos, teríamos muito mais habilidade em reivindicar direitos e frente a situações de abuso, opressão ou desrespeito.


Marina De Martino CNV

Facilitadora de grupos de Comunicação Não-Violenta e Justiça Restaurativa






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