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Seu relacionamento se tornou um acordo para sofrer juntos?

Amor é sofrimento e renúncia?

Gary Chapman tem um livro chamado as 5 linguagens do amor. Não é um livro sobre Comunicação não-Violenta, mas alguns ponto que ele apresenta está muito alinhado com a diferenciação entre necessidade e estratégia, um dos pontos-chave da Comunicação Não-Violenta.


Chapman é terapeuta de casais e durante sua prática, foi percebendo que as pessoas tinham formas diferentes de dar e receber amor. E que muito conflitos eram gerados por conta desse desencontro ente as linguagens.


Ele enumerou 5 linguagens diferentes pelas quais as pessoas dão e recebem amor: presentes, tempo de qualidade, atos de serviço e cuidado, elogios, contato físico.


Veja só a confusão: imagine que a esposa tem como linguagem de amor principal o toque e o marido elogios. A esposa vai oferecer amor ao marido com toques, mas ele espera receber elogios e como não os recebe, tem a sensação de não ser suficientemente amado e reconhecido. A esposa por sua vez vai receber mais elogios do que toque e vai ficar igualmente com a sensação de não ser amada e desejada. Parte do trabalho com os casais consiste em ajuda-los a identificar suas linguagens de amor e comunica-las com clareza aos parceiros.


Marshall Rosenberg argumenta que um dos grandes problemas e fontes de conflito é acreditar que o outro tem o poder adivinhar o que a gente quer sem que a gente tenha que pedir, ou até mesmo sem que a gente mesmo saiba o que e como queremos!


Quando o outro eventualmente adivinha o que queremos é lindo, mas a chance de se frustrar é muito grande. Me lembro de uma pessoa que descrevia seu relacionamento passado com certa tristeza, frente a incapacidade de encontrar uma parceira com igual característica: “ela tinha a capacidade de me surpreender sempre!” Mas por que temos que ser surpreendidos? Será que receber o que pedimos tem menos valor?


Além das 5 linguagens que Chapmam descobriu, percebo que frequentemente as pessoas associam amor a renúncia ou a quantidade de sofrimento que o outro pode suportar para manter a relação. Entra nessa dinâmica a dificuldade em falar “não”, pois apresentar limites seria recebido como uma rejeição ou agressão. Então acabamos colocando nossa saúde física ou mental em risco para não ferir os sentimento do outro (as mulheres são frequentemente mais pressionadas a manifestar esse tipo de submissão), mas imagine dano que isso causa quando se repete por anos ou décadas?


Me lembro do documentário Human, em que um dos entrevistados, condenado a prisão perpétua por matar uma mulher, falava de sua educação e concepção de amor. Ele vivera em um lar violento, então passou a acreditar que amar estava diretamente ligado a quantidade de dor que podemos suportar para estarmos juntos. Esse é um caso extremo, mas se observarmos com cuidado, é possível constatar que é bem comum essa associação permear os relacionamentos.


Principalmente quando as crianças que são punidas fisicamente por alguém que elas amam e confiam é comum que elas associem amor a violência e carregarem isso para seus relacionamentos adultos, resultando nesses índices alarmantes de violência doméstica (tanto por parte das mulheres que não conseguem diferenciar um potencial agressor de um companheiro quanto dos homens que tem referência de como se relacionar fora dos padrões destrutivos da masculinidade violenta).


Sob essas perspectivas, o amor ao invés de ser algo para nutrir e sustentar a vida tem se transformado acordos para sofrer juntos.


Marina De Martino

Facilitadora de grupos de Comunicação Não-Violenta e Justiça Restaurativa

Atendimentos individuais, casais, famílias, empresas, ongs, escolas

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