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Terapia pode ser uma forma de opressão?

Atualizado: 3 de jul. de 2023

Eu passei boa parta da minha vida em psicólogos, por ter dificuldade de me adaptar à escola, aos relacionamentos, ao trabalho...

A primeira vez que fui à terapia, eu tinha 7 anos, estava em uma escola extremamente rígida, professoras desequilibradas, gritos, castigos, cobranças, excesso de lição, falta de tempo para brincar e ser criança...


Eu comecei a ter crises de choro e medo, não queria mais ir à escola. Disseram que eu tinha problemas, afinal todas as crianças estavam bem: olha só Marina, ninguém aqui está chorando, só você, o problema é você.


Naquele tempo eu acreditei que o problema era eu e carreguei um peso enorme nas costas por anos, por acreditar que eu era menos equilibrada que os outros, menos resiliente, e a cura que eu perseguia era desenvolver mais resistência emocional, pois minha sensibilidade era um problema.


Só depois de muitos anos, já adulta, talvez depois dos 30 anos é que eu me dei conta de que eu não estava doente, de que quem estava profundamente adoecida era a escola, e que chorar e berrar que não quer se submeter a um tratamento desrespeitoso e abusivo era um estado de profunda saúde emocional. Veja só a diferença que faz mudar a perspectiva! Pena que ninguém me disse isso na época.


Aí eu já adulta, em uma situação de trabalho extremamente desgastante, atendimento ao público, sobrecarga de trabalho, cobranças exageradas, movimentos repetitivos no computador, 15 minutos para almoço, às vezes sem tempo de parar nem para fazer xixi...comecei a sentir que aquilo estava me causando diversos problemas físicos e psíquicos, mas mesmo assim, busquei por uns 2 anos ser persistente e resistir.


Mas chegou um ponto em que eu decidi solicitar uma remoção para outro setor e após vários pedidos negados, cheguei ao meu limite: ou eu era removida da função ou pediria demissão e fui pessoalmente comunicar a decisão ao meu chefe.


Diante da situação, felizmente ele compreendeu o que se passava comigo e me alocou em outro setor, mas ao nos despedirmos, me endereçou a famosa pérola ao qual eu já estava acostumada: você está tão desequilibrada, deveria procurar um psicólogo...


Eu compreendo que a intenção dele era de me ajudar, mas ao mesmo tempo isso tinha um peso: eu deveria fazer terapia para conseguir suportar o insuportável. Se fosse em outro momento, eu teria sentido vergonha e me culpado, retornando a algum processo terapêutico para tentar me adequar. Dessa vez, porém, eu tive forças para contestar aquela voz vinda de uma figura de autoridade e consegui deixar claro: quem está doente é o ambiente de trabalho e você sabe disso tanto quanto eu. Perceber que este ambiente me faz mal e me movimentar para sair é sinal de saúde, não de doença”.


Fazer terapia é muito importante e necessário quando realmente temos alguma questão que precisa de atenção e cuidado, ela inclusive pode nos apoiar a desenvolver recursos internos, resiliência, disciplina e equilíbrio emocional para atravessar situações desafiadoras e dolorosas, mas será que como nestes dois casos em que citei, uma figura de autoridade (professor, chefe, etc.) me sugerir ou me encaminhar para terapia porque eu estava desequilibrada não seria uma forma de manter o silenciamento, invisibilizando e normalizando os desequilíbrios e abusos do ambiente organizacional?


O quanto de invalidação não recebemos por conta de uma suposta doença física ou emocional que nos atribuem? Essa reclamação só pode ser por conta da TPM, ela é histérica”, “minha ex-namorada é louca”, etc.;


Um dos aspectos que considero muito importante dentro da prática da Comunicação Não-Violenta é o foco nas 3 dimensões que perpassam nossa experiência: intrapessoal (eu comigo), interpessoal (eu com o outro) e sistêmica (eu com a sociedade, cultura). Essas 3 dimensões se entrelaçam e se influenciam mutuamente e é muito importante que elas sejam consideradas em processos de autoconhecimento, gestão de conflitos, etc.


Nem tudo é problema nosso, às vezes o problema é do outro e entender isso é libertador!


Marina De Martino

Facilitadora de grupos de Comunicação Não-Violenta e Justiça Restaurativa

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