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Um aspecto pouco conhecido que afeta seu equilíbrio emocional

Certa vez eu estava facilitando um ciclo de encontros com base no livro Gente que Mora Dentro da Gente, da Patrícia Gebrim. Era o dia que abordávamos o tema da criança interior e aconteceu que uma das participantes estava muito fragilizada emocionalmente naquele dia, tomada pelo medo, pois seu pai estava hospitalizado em estado grave.


Nós seguimos com as atividades e eu propus que ela fizesse só o que se sentisse confortável, dado seu estado emocional. A proposta era uma série de exercícios, textos e reflexões que nos permitiriam identificar as qualidades e características da criança que fomos e de que forma ela ainda se manifesta em nossa vida adulta.


Isso implica resgatar a criatividade, leveza, confiança e flexibilidade que tínhamos quando éramos crianças, mas também identificar aqueles momentos em que nos sentimos impotentes, perdidas, desesperadas, pois possivelmente essas memórias também podem influenciar de forma distorcida nossas percepções e reações atuais.


Essa participante aderiu as atividades e ao final estava se sentindo bem mais equilibrada.

O grupo tem um potencial de nos apoiar e sustentar de forma muito amorosa, mas além disso, me chamou a atenção o potencial do trabalho com a criança interior: grande parte do medo e terror que ela estava sentindo vinha do fato de estar identificada com a expressão emocional na criança, aterrorizada, com medo de perder o pai e não poder sobreviver sozinha.


Ao reconhecer esse aspecto sua criança e des-identificar sua totalidade dessa perspectiva, ela pode compreender que agora, como adulta, perder o pai pode ser algo extremamente doloroso e triste, mas não algo pavoroso e devastador como seria do ponto de vista infantil. Ao mesmo tempo, essa reconexão com aspectos da criança interior pode auxiliar recuperação de parte da alegria, resiliência, flexibilidade e criatividade para seguir em frente e superar a fase difícil com mais leveza.


Grande parte do nosso aprendizado emocional consistem em identificar a partir de qual ponto de vista interior fazemos as leituras de nossa experiência, Patrícia Gebrim, em seu livro, nos apresenta além da criança, mais alguns personagens internos, dentre eles, o eu-observador (que mantém um postura de distanciamento e análise, portanto menos carregada emocionalmente) o eu-superior (aquela parte nossa que é mais madura, equilibrada, que visa à harmonia) o eu-inferior (nossa parte rejeitada, ferida, que carrega traumas e outras cargas), o eu-mascarado (a personalidade que desenvolvemos para nos adaptarmos ao que esperam de nós, mas que também nos impede se sermos autênticos, até conosco mesmos).


Além desses “personagens”, temos muitos outros que podem interferir ou influenciar, de forma construtiva ou não, a forma como lemos nossas experiências e reagimos. Rubem Alves tem um texto muito interessante sobre esse tema, “Os moradores do Albergue”, em que ele descreve alguns outros moradores do nosso “albergue interior”.


A partir de qual ângulo você tem feito a leitura das suas experiências?

Quanto mais pudermos acessar e cultivar o a perspectiva do eu-observador ou do eu-superior melhores serão as interpretações que faremos da realidade e construiremos melhores relações conosco e com os outros.



Marina De Martino

Facilitadora de grupos de Comunicação Não-Violenta e Justiça Restaurativa

Atendimentos individuais, casais, famílias, empresas, ongs, escolas


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