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Você tem sentimentos proibidos?



Quando já fazia uns 2 anos que estávamos na casa da Comunidade Dedo Verde, fomos contatados para dar uma entrevista para a TV Gazeta (nós fomo ficando bem famosos ao longo do tempo, aparecemos também na Globo, na TV Aparecida, no Estadão, etc.).


Essa era a primeira vez que eu apareceria na TV e eu sempre tive muitos bloqueios com câmeras, é algo extremamente ameaçador e desafiador para mim. Eu queria muito falar com fluência como meus amigos, mas não consegui. Fui ficando muito tensa, em certo momento chorei de tensão e frustração. Era o momento de gravar a cena final e eu falei para o Chris, meu companheiro da época, que eu não queria aparecer pois estava com cara de choro. Ele me disse uma frase muito marcante sobre lidar com sentimentos, um grande aprendizado: "se as pessoas te virem na TV com cara de choro, o máximo que pode acontecer é elas descobrirem que você é humana."


Isso me fez refletir sobre diversos momentos em que rejeito meus sentimentos, ou tento dissimula-los para me adequar a uma imagem do que esperam de mim e comecei a dar cada vez mais espaço para meus sentimentos existirem, fluírem, se expressarem.


Quando me separei do Chris, vivemos momentos muito confusos, afinal uma separação implicaria uma mudança de país (ele é francês), não era simplesmente "vamos morar afastados e se mudarmos de ideia voltamos". Haveria um oceano de distância entre nós.

Como nós morávamos em uma casa coletiva, esse luto e tristeza foi visto e compartilhado com outras pessoas e também impactava as relações na casa, que precisariam se reequilibrar com a saída dele...o luto era coletivo, mesmo que os outros não reconhecessem isso.


Eu não queria negar meu luto, nem minha tristeza, não queria dissimular como me sentia. Se estava na sala e tivesse vontade de chorar ou havia uma conversa com mais tensão, não queria esconder aquilo...

É curioso como isso incomoda e causa desconfortos terríveis em quem está em volta. Quebrar acordos tácitos (não verbalizados) do que é aceitável expressar e o que não é aceitável pode ser muito desconcertante e desorientador. Nossa cultura tem o acordo tácito de esconder a tristeza e a tensão.


Eu me perguntava, por que chorar na sala é proibido mas gargalhar não é proibido?

Quantas vezes não explodimos em risos na sala e ninguém se incomodou? Quantas vezes outras pessoas se juntaram para rir junto? Por que permitir que as pessoas apenas chorem é considerado absurdo?


Chorar quando estava trabalhando também era outro motivo de desconfortos e descrédito de algumas pessoas. Eu estava triste, eu tinha vontade de chorar, o que isso prejudicaria meu trabalho? Por que permitir que as pessoas vissem minhas lágrimas diminuiria a confiança delas ou a qualidade do que eu oferecia?


E vou além, se estamos trabalhando com desenvolvimento humano, me faz muito sentido as pessoas saberem quando as outras não estão bem. Isso em grupos de trabalhos terapêuticos e de autoconhecimento já é aceito que ocorra entre os participantes, mas saber que as pessoas que lhes servem, facilitadores, cozinheiros, etc. estão tristes ainda é causa de receio ou tabu.


Um outro exemplo em que os sentimentos são proibidos tem a ver com as construções de gênero – homem não chora, não sente medo. Mulheres devem ser delicadas, não devem expressar a raiva...

Não são apenas sentimentos dolorosos que são proibidos – pense no mundo que vivemos hoje: sentir calma, tranquilidade e satisfação pode ser ameaçador para muitas pessoas. Vivemos em constante estado de medo e alerta, esperando que algo ruim possa acontecer.


Satisfação é outro sentimento proibido, se você está satisfeito consigo mesmo você pode ser visto como arrogante, sendo privado da vinculação com os outros... já percebeu quantas pessoas se juntam para reclamar, às vezes a forma de se vincular é pautada apenas pela dor e pelas insatisfações, reforçando a sensação de impotência.


Quais sentimentos proibidos você percebe nas suas relações?


Marina De Martino

Facilitadora de Comunicação Não-Violenta e Justiça Restaurativa


Saiba mais sobre a Comunicação Não-Violenta em minhas paginas

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Site - www.comunicacaoecooperação


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